O segundo sinal veio do céu.
Um feixe azul intenso atravessava as nuvens, formando um cilindro de luz perfeitamente alinhado, como se conectasse a terra a algo muito acima. A ilumina??o organica das casas come?ou a oscilar levemente, respondendo à interferência energética.
Ent?o come?aram a cair os primeiros flocos.
Pequenos.
Leves.
Irregulares.
Neve.
Em Telúria.
Alguns moradores estenderam as m?os para confirmar que n?o era ilus?o.
Era gelo real.
E estava aumentando.
A poucos quarteir?es dali, Evan e o grupo mantinham distancia de Ruth — ainda flutuando alguns centímetros acima do asfalto congelado, os bra?os abertos, o corpo rígido como se sustentado por fios invisíveis. Os quatro cristais de gelo ao redor dela pulsavam em sincronia com o feixe azul que atravessava o céu. Pequenas partículas congeladas orbitavam as estruturas cristalinas, e o som ao redor n?o era silêncio. Era um estalar constante, como se o próprio ar estivesse se solidificando.
— Ruth! — Grace gritou, a voz já embargada pelo frio.
Nenhuma resposta.
— Ela pode n?o estar ouvindo — disse Maisa, os bra?os envoltos no corpo. — Pode estar completamente fora de controle.
O gelo come?ava a se espalhar pelo asfalto em padr?es radiais, formando veios cristalinos que avan?avam pelas laterais da rua.
Pedro chutou o ch?o congelado e recuou.
— Se isso continuar, ela vai transformar Telúria numa escultura.
Cristopher analisava os cristais com aten??o.
— Eles est?o acumulando energia. N?o é só descarga contínua.
Evan sentia o frio diferente dos outros. N?o apenas na pele, mas por dentro. Era uma vibra??o semelhante à que sentira no quarto dela, só que amplificada.
— Se esses cristais dispararem — ele disse, sem tirar os olhos de Ruth — n?o vai ser só o céu que vai congelar.
Beth aproximou-se um passo.
— Ent?o a gente precisa interromper antes que isso aconte?a.
Mais um estalo ecoou no ar. Um dos cristais brilhou com intensidade maior por um segundo, e uma camada adicional de gelo se formou ao redor da base.
Pequenos postes de ilumina??o come?aram a congelar parcialmente, o azul organico da cidade ficando mais opaco.
— Ela está drenando energia da própria Telúria — murmurou Beth
Evan deu um passo à frente.
— Ruth! Escuta a gente! Você precisa parar!
O feixe azul continuava subindo, e os flocos de neve agora caíam com mais densidade.
Alguns moradores come?avam a correr para dentro de casa.
Sirene distante.
Telúria come?ava a reagir.
Evan fechou os olhos por um instante, tentando organizar o que sentia. A voz interna n?o falava, mas a energia dentro dele estava ativa, atenta desde o bosque.
Ele abriu os olhos novamente.
— Se isso é rea??o... — murmurou — ent?o existe algo que está causando.
Grace o encarou.
— O que você está pensando?
Evan observou os cristais.
Observou o feixe.
Observou Ruth.
E ent?o tomou uma decis?o.
— A gente n?o pode atacar ela. Se for rea??o energética, for?ar pode piorar.
Pedro ergueu as sobrancelhas.
— Ent?o qual é o plano, estrategista?
Evan respirou fundo, sentindo a própria energia se alinhar sob a pele. O frio já n?o o atingia apenas como temperatura; era vibra??o, interferência.
— Ao entrar em Telúria, ela come?ou a se comportar estranho — disse, a voz firme apesar do caos ao redor. — Falou que estava se sentindo mal, que precisava se reorganizar. Ela já estava reagindo a alguma coisa.
Ele olhou para o feixe azul cortando o céu.
— Foi ela quem criou e desenvolveu o núcleo energético da cidade. Se alguém aqui está conectado a esse sistema em nível profundo, é a Ruth. Isso n?o é um ataque aleatório. é sobrecarga. Ressonancia.
Cristopher estreitou os olhos, analisando os cristais que vibravam ao redor dela.
— Você acha que o núcleo está amplificando o poder dela?
— N?o só amplificando — respondeu Evan. — Está alimentando.
— Alguem aqui já sabia que ela tinha poderes? — Questionou Pedro, finalmente.
Um estalo mais alto ecoou no ar, e uma camada adicional de gelo se espalhou pelos postes próximos. O azul natural da ilumina??o de Telúria come?ava a ficar instável.
Grace sentiu o ar arder nos pulm?es.
— Se o núcleo continuar ativo, isso vai virar um ciclo de retroalimenta??o.
Pedro cruzou os bra?os, já percebendo o óbvio.
— Ent?o a cidade inteira está servindo de bateria.
Maisa arregalou os olhos.
— Se desligarmos o núcleo, Telúria apaga.
— Melhor apagar do que congelar tudo — disse Beth, encarando o feixe que parecia solidificar as nuvens.
Evan assentiu.
— Vamos desligá-lo. Agora.
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Ele virou para Ruth, que ainda flutuava, olhos acesos em cores opostas, presa naquele transe de energia descontrolada.
Cristopher respirou fundo.
— O núcleo fica no setor central. Abaixo da torre principal.
Pedro já se movia.
— ótimo. Porque se a gente ficar aqui debatendo, vamos virar estátuas.
Grace olhou para Mari, hesitante.
— E ela?
Evan encarou o feixe azul mais uma vez. O frio estava ficando insuportável, mas a energia dentro dele permanecia firme.
— Eu fico.
O grupo o encarou.
— Se o núcleo desligar e houver instabilidade na descarga, alguém precisa absorver ou redirecionar. Eu consigo lidar com isso.
Pedro abriu a boca para protestar, mas parou ao ver a express?o de Evan.
N?o era o mesmo garoto da quadra. Era alguém que já entendia o peso das decis?es.
— Dividimos — decidiu Cristopher. — Pedro, você comigo. Beth e Maisa para ajudar na conten??o estrutural se algo desabar. Grace, você escolhe.
Grace n?o hesitou.
— Eu fico.
Evan n?o discutiu.
O gelo continuava avan?ando pela rua, formando padr?es fractais no asfalto. Os cristais ao redor de Mari vibravam com intensidade crescente.
O tempo estava acabando.
Cristopher e os outros correram na dire??o do setor central da cidade.
Evan avan?ou alguns passos em dire??o ao campo congelado ao redor de Mari.
O feixe azul rugia agora, n?o apenas como luz, mas como press?o no ar.
Ele ergueu a m?o, faíscas elétricas dan?ando entre os dedos.
— Aguenta só mais um pouco... — murmurou.
Grace envolveu o próprio corpo em uma camada fina de chamas roxas claras. O fogo n?o queimava o ar ao redor, mas criava uma película vibrante que a isolava do frio que avan?ava pela rua. Evan fez o mesmo à sua maneira: a eletricidade percorreu seus bra?os, subiu pelo pesco?o e se estabilizou como um campo pulsante ao redor dele. Seus olhos azuis estavam acesos; os de Grace, em um roxo claro intenso. Ambos resistiam ao congelamento crescente enquanto tentavam pensar sob press?o.
O feixe azul ainda rasgava o céu acima de Ruth.
— Eu tenho uma ideia — Evan disse, já analisando o fluxo da energia.
— Eu n?o gosto do tom que você usa quando diz isso — Grace respondeu, mas manteve-se ao lado dele.
Era arriscado demais. Mas n?o havia outra op??o visível.
Enquanto isso, Cristopher e os outros já alcan?avam o setor central de Telúria. Mesmo do lado de fora, a vibra??o do núcleo era perceptível, como um pulso constante no ar. Eles tentaram encontrar um acesso controlado, mas os sistemas estavam parcialmente instáveis e o tempo era curto demais para cautela.
Pedro resolveu o impasse.
Ele tocou a parede, concentrou-se, e o concreto vibrou sob sua m?o. Uma fissura surgiu, expandiu-se, e em segundos abriu-se um buraco largo o suficiente para que todos saltassem para dentro. Alarmes dispararam imediatamente, luzes de emergência acenderam, e eles correram pelos corredores até alcan?arem o subsolo.
Foi Beth quem encontrou a camara.
O núcleo estava protegido por uma estrutura prismática de vidro cristalino apontada para cima, como se sustentasse a cidade inteira. A energia emanava dali em pulsos azul-intensos, mas misturada a uma frieza branca quase cirúrgica. No centro, uma abertura circular girava lentamente, sugando para dentro como se o ar ao redor estivesse sendo comprimido em espiral.
— Parece uma das X's da Ruth... só que refinada — murmurou Maisa.
Pedro já se aproximava. Ele tocou o vidro. A estrutura vibrou por um segundo e estourou em fragmentos controlados, desintegrando-se sob a manipula??o precisa da vibra??o.
Ele virou para as meninas, piscando.
— Porta aberta.
Beth e Maisa o encararam.
— Você n?o precisava fazer essa entrada dramática — disse Cristopher, balan?ando a cabe?a.
— Precisava sim — Pedro respondeu, satisfeito.
O núcleo pulsava logo à frente.
— E agora? — Cristopher perguntou.
Pedro cruzou os bra?os.
— Você é o estratégico. Impressiona a gente.
Enquanto isso, na rua congelada, Evan colocou seu plano em prática.
Ele ergueu os bra?os e concentrou a energia elétrica. O ar estalou ao redor dele. Linhas de for?a se expandiram, formando um domo gigantesco que envolveu Ruth e o feixe de energia. O campo subiu como uma cúpula translúcida do tamanho de um prédio de vinte andares, encapsulando o cilindro azul e interrompendo sua expans?o pelo céu.
O congelamento cessou acima da cidade.
Mas n?o dentro.
A energia contida dentro do domo come?ou a reagir. Evan tentou absorvê-la, mas percebeu imediatamente que n?o era compatível com o que conhecia. N?o era elétrica. N?o era arcana comum. Era estrutural. Fria. Densa.
O domo come?ou a cristalizar.
Pequenas fissuras surgiram na superfície energética, transformando-se em camadas de gelo translúcido. A cúpula que deveria conter a amea?a agora se tornava uma pris?o congelada.
— Evan... — Grace chamou, percebendo o problema.
Se o domo fechasse completamente, congelaria parte do bairro junto.
A temperatura caiu de forma brutal. O ar ardia nos pulm?es. A rua inteira parecia feita de cristal.
Dentro do domo, o gelo avan?ava centímetro por centímetro.
E ent?o, no que parecia o último segundo possível, o feixe azul cessou abruptamente.
Ruth perdeu sustenta??o e caiu.
Os quatro cristais ao redor dela explodiram em fragmentos de gelo, mas sem violência. N?o houve impacto letal, apenas dissipa??o.
No subsolo, Cristopher e os outros haviam desligado o núcleo.
A teoria estava correta.
A conex?o foi interrompida.
O domo estalou alto, como vidro sob press?o extrema. Evan manteve-se firme até o último instante, e ent?o a estrutura se fragmentou em milh?es de partículas cristalizadas que se espalharam pelo céu escuro.
A cidade estava sem energia. Telúria apagada.
Mas o espetáculo era surreal.
Fragmentos luminosos caíam lentamente como uma chuva de estrelas congeladas, refletindo a pouca luz restante. Um silêncio quase reverente tomou conta da rua.
Grace se aproximou e envolveu Evan num abra?o breve, ainda ofegante.
— Deu certo.
Evan olhou ao redor, sentindo o peso da exaust?o finalmente chegar.
— Acabou — disse, num tom de alívio que parecia frágil demais para ser definitivo.
Eles correram até Ruth.
Ela estava desacordada, mas respirando. O pulso era estável.
A cidade estava escura.
O frio come?ava a recuar.
Mas algo naquela energia diferente que ele n?o conseguiu absorver ainda permanecia na mente de Evan.
E aquilo definitivamente n?o parecia o fim.
O grupo se reuniu ao redor de Evan, Grace e Ruth ainda caída no asfalto frio. O ar come?ava a perder aquela rigidez cortante, mas a cidade permanecia mergulhada numa penumbra azulada, como se Telúria ainda estivesse tentando decidir se voltava a respirar.
Pedro foi o primeiro a falar, como sempre.
— Ufa. O cabe??o de peixe aqui sabia chegar no centro energético, mas desligar já era pedir demais.
Cristopher lan?ou um olhar atravessado.
— Pelo menos eu sabia onde era o centro energético.
— Sabia chegar, n?o sabia resolver — Pedro rebateu, erguendo as m?os. — Informa??o incompleta é quase inútil, professor.
Maisa interrompeu antes que a discuss?o crescesse.
— Sorte que o Luiz apareceu de última hora e desligou o sistema.
Luiz ajeitou o casaco, ainda ofegante.
— Obrigado vocês por serem lentos. Se tivessem sido eficientes, eu n?o alcan?ava. Péssima ideia ter ficado naquele laboratório da Ruth.
Pedro apontou para ele.
— Tá vendo? Até o traidor da velocidade reconhece.
— Eu n?o sou traidor — Luiz respondeu, mas um canto da boca quase cedeu.
Beth olhou ao redor, a tens?o voltando aos poucos.
— E agora? Voltamos para o laboratório?
Evan negou antes mesmo de terminar a pergunta.
— N?o. Eles v?o nos encontrar lá. Se ainda n?o est?o, est?o a caminho.
Cristopher concordou.
— Com o núcleo desligado, o centro vai ser o primeiro ponto de checagem. Eles v?o para lá antes de qualquer outro lugar.
Grace cruzou os bra?os, tentando conter a ansiedade que crescia no peito.
— Ent?o o que a gente faz, Evan?
A pergunta n?o era apenas estratégica. Era quase um pedido de dire??o.
Desde a queda no Vale, tudo parecia empurrá-los de um evento impossível para outro ainda maior. Sussurros surgindo do nada. Anne capturada. Ruth revelando um poder que ninguém conhecia. Uma cidade quase congelada.
Eles n?o tinham tempo para processar.
E agora havia mais uma variável.
Ruth.
Evan olhou para ela por um segundo mais longo. O rosto estava sereno demais para alguém que havia acabado de congelar o céu. Eles nem sabiam que ela possuía aquilo. Mais um mistério acumulado.
Talvez n?o fosse em Telúria que encontrariam respostas.
Talvez n?o fosse em Aster.
Talvez a origem estivesse em outro lugar.
O pensamento veio como um estalo claro.
— Quando eu e Anne chegamos — come?ou ele, finalmente — fomos levados para o Pier 1. Foi lá que tudo come?ou. Lá também caiu um meteoro. Menor... mas foi o suficiente para levantar uma onda contra o farol e quase nos arrastar.
Pedro inclinou a cabe?a.
— Você acha que é coincidência?
— N?o acredito mais em coincidência — Evan respondeu.
O grupo trocou olhares. Ninguém parecia ter alternativa melhor.
Mas ainda havia Ruth.
Beth se ajoelhou ao lado dela novamente, verificando pulso, respira??o, temperatura.
— Ela n?o tem ferimentos. O corpo está estável. Só está inconsciente.
— E se reativarem o núcleo? — Maisa perguntou.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Eles sabiam o que aquilo significava.
Se o sistema voltasse a funcionar e houvesse mesmo uma conex?o estrutural entre Ruth e o núcleo, ela poderia entrar em colapso de novo. Talvez pior.
A decis?o n?o era simples.
Nem justa.
Mas era lógica.
Pedro quebrou o silêncio dessa vez, mais sério do que o habitual.
— Se a gente ficar, somos capturados. Se levarmos ela, ficamos mais lentos. Se ligarem o núcleo e ela reagir... pelo menos v?o ter equipe médica.
Grace fechou os olhos por um segundo.
— Ela programou tudo aqui. Alguém pode saber da liga??o entre ela e o núcleo.
Evan respirou fundo.
Deixá-la ali parecia errado. Mas arrastá-la inconsciente para uma fuga caótica poderia ser pior.
— Eles v?o reconhecer ela de Aster — disse, tentando racionalizar. — V?o levá-la para lá. Ela vai ficar segura.
N?o era certeza.
Era esperan?a organizada.
Cristopher e Luiz já se afastavam para procurar um veículo.
As primeiras sirenes come?aram a ecoar ao longe. Algumas luzes de Telúria piscavam, tentando se reestabilizar.
O tempo deles tinha acabado.
Poucos minutos depois, Cristopher e Luiz reapareceram correndo com uma mini van.
— Achamos transporte! — gritou Pedro, aliviado demais para manter a compostura.
Eles entraram rapidamente. A última coisa que Evan fez antes de fechar a porta foi olhar para Ruth mais uma vez.
— Aguenta — murmurou.
O motor ligou.
A mini van partiu pelas ruas ainda parcialmente escuras, enquanto ao longe as for?as de seguran?a convergiam para o centro energético.
Rumo ao Pier 1.
Rumo ao lugar onde tudo come?ou.

